quinta-feira, 20 de maio de 2010
A visita do Papa
... tem gerado em vários países, Portugal é um deles, um surto de imbecilidade considerável. À falta de anticlericalismo popular, há agora uma nova forma de anticlericalismo intelectual de parte da esquerda « fracturante ». Enquanto não houver um Papa que seja mulher, lésbica, negra, de preferência não crente, e que vote nos EUA no Obama, os Papas, em particular este, são alvos preferenciais. E este acirra os ânimos de forma muito especial porque é branco, alemão, conservador, teólogo, e conhece bem demais a impregnação da doutrina cristã pelas variantes na moda desde os anos sessenta de « progressismo » esquerdizante. A absurda intolerância dos « fracturantes » exerce-se então em toda a sua amplitude.
(Pacheco Pereira, Retirado do Abrupto)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Papa em Lisboa
terça-feira, 20 de abril de 2010
Igreja e pedofilia
Mas, como qualquer bom provocador, o Conjurado não podia ficar sem postar nada.
Copio, um texto de José Luís Seixas que encontrei por aí...
« Primeiro lugar-comum: A Igreja Católica é constituída por homens sujeitos às fragilidades da sua condição é um lugar-comum. Poucos são os ungidos pela Santidade. O Povo de Deus é formado por pecadores que esperam a remição das suas faltas. E tantas são.
Segundo lugar-comum: As denunciadas práticas de pedofilia imputadas a sacerdotes católicos são chocantes e indignam de forma especial os próprios católicos. São ofensas gravíssimas às crianças e a Deus, cometidas por quem as devia proteger e educar.
Terceiro lugar-comum: O ocorrido em instituições da Igreja Católica passou-se em instituições de outras Igrejas, de organizações laicas, do próprio Estado e passa-se, infelizmente, no seio de muitas famílias. Entre nós o infindável “Processo Casa Pia” deixou no ar muitas e muitas interrogações sobre os comportamentos de uns e as omissões de outros. E falamos de tempos recentes. Não remontamos a meio século atrás em que a valoração destes actos era outra e os silêncios acobertavam prevaricadores com relevância pública conhecida.
Quarto lugar-comum: Esta factualidade nada justifica ou branqueia. Ao contrário do mundo secular, a Igreja prostrou-se perante o sacrifício e a dor das vítimas de tais perversões. Pediu desculpa num gesto de profundo sofrimento. Reparou o que pôde reparar. E submeteu à Justiça dos homens os crimes praticados.
O que também é lugar-comum: Tudo isto é indiferente ao fundamentalismo ateísta, alimentado por ódios, recalcamentos e muita irresponsabilidade. Ver beliscada a autoridade moral da Igreja através de comportamentos indignos de alguns sacerdotes é uma prebenda que desfruta com indizível deleite. Ao pé desta campanha, o anticlericalismo jacobino da Carbonária era um jogo de playstation! »
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Páscoa
Por que razão tem esta gente toda a necessidade de fazer isto?
Mas uma coisa é certa, o Mundo seria muito menos divertido se não fosse assim.
Não acham?
segunda-feira, 9 de março de 2009
À conversa com...
Num ano em que se discute tanto a teoria proposta por Darwin e Wallace em 1958, não poderia estar mais de acordo com todas as frase proferidas por este Jesuíta.
Uma lição de humildade e sabedoria comum à ciência e ao cristianismo.
Enormes são as críticas que se podem fazer, mas neste aspecto, somos usualmente muito ignorantes sobre a posição da Igreja. O resultado é, normalmente, colocar todos os religiosos no mesmo saco. Infelizmente somos assim...
Por favor, não percam o resto da entrevista que está disponível no youtube!
Publicado simultaneamente no Lusodinos
sábado, 29 de março de 2008
Brincar com a Evolução.
Doi assim tanto parecer ridículo? será o riso assim tão subversivo? será isso mau?
Talvez, mas só enquanto todos o virmos assim.
Como exemplo deixo aqui um vídeo que me enviaram. É uma sátira sobre Epistemologia das Ciências. Sim, Epistemologia da Ciências, por ser um palavrão parece ter um significado muito profundo. Mas é muito simples de definir: é o estudo de como sabemos o que sabemos. A definição é fácil agora estudar Epistemologia é bem mais complicado.
De qualquer das formas como não quero perder, por agora, mais tempo com assuntos sérios cá vai a brincadeira sobre o que pessoas como Dawkins, Dennett, Harris, Hitchens e outros pensam sobre a forma de sabermos o que sabemos.
Já que a regra é "brincar com os outros tudo bem, brincar comigo nem pensar" e como, epistemologicamente, não me incluo nesse grupo de notáveis quero lá saber e cá vai disto.
«My name is D to the I to C to the K, Yeah I'm the Dickie D,
I gots my PhD and comin' your way on the Youtube to bust your world view so just listen to me and don't you argue.
You see, this battle's been ragin' since Zeus was on the bottle, 'tween Science like Democritus and Faith like Aristotle,
who said the mover was unmovin' like some magic trick but
that's no good logic, my posse is far too quick for this
religious schtick.
Coz science is the only way to know y'all, you stand with me y'all, or you can fall y'all
So go ahead and take your pick...
ES: Yeah you tell him Rick ...
Darwin: Coz if you don't know me ...
RD: YOU DON'T KNOW DICK!!
Chorus: Yeah he's the Dick to the Dawk to the PhD,
he's smarter than you he's got a science degree!
Yeah he's the Dick to the Dawk to the PhD,
he's smarter than you he's got a science degree!
SH: On the shoulders of midgets we built up this machine,
DD: YEAH!!!
RD: Science silenced that watchdog wingnut Paley
growing stronger and harder almost daily, storming Wilber by force as we framed the discourse that faith and science are split in schismatic divorce.
Then Darwin took to the seas to see what no one had seen, and ever since then we've been increasingly keen, they may never adore us, but they'll no longer ignore us,
give it to 'em PZ hit these *BLEEP* with the chorus!!!
Chorus : Yeah he's the Dick to the Dawk to the PhD,
he's smarter than you he's got a science degree!
The Dick to the Dawk to the PhD,
he's still smarter than you he studied biology!
Then there was Darrow dukin' it out with the straight and the narrow,
a ragin' bull in the ring, he did his thing, and took it on the chin like he was Bobby De Niro.
We might have lost at Scopes, beaten down by the dopes, and the stooges of popes, but in losin' we coped, becomin' more than we hoped, creationists slipped on the soap of their own slippery slope.
What was impossible, improbable, is now wholly unstoppable untoppleable, the Dick Dawk'll roll up as you creationists foldup
you haters talkin' bull,
don't you know that this Dick is un-*BLEEP*-frickin' blockable ...
Chorus: Yeah he's the Dick to the Dawk to the phd,
he's smarter than you he's got a science degree!
The Dick to the Dawk to the phd,
he's still smarter than you he studied biology!
Now the machine of our making, sees culture ripe for the taking,
Coz I'm the rappinest, rabidest atheist who unlike the Catholic, Muslim, or even the Jew, believes that no God but science could ever be true, hell if I was dyslexic I'd even hate "dog" too.
Time to open your eyes, get yourself wise, the age of sciences'll rise to be religion's demise,
and while you churchies all cry, shouting 'why God oh why,'I'll still be poppin' my collar earning more dollars than Allah.
Hollah!
Chorus: Yeah he's the Dick to the Dawk to the phd,
he's smarter than you he's got a science degree!
The Dick to the Dawk to the phd,
he's still smarter than you he studied biology!
Chorus: Yeah he's the Dick to the Dawk to the phd,
he's smarter than you he's got a science degree!
The Dick to the Dawk to the phd,
he's still smarter than you he studied biology!
[repeat chorus]»
Nota1: O ridículo neste vídeo está tanto nas incongruências de alguns ateus como nas intenções dos IDiotas que fizeram(?) esta brincadeira. Gozar com as coisas não nos dá razão, apenas pode tornar tudo mais divertido.
Nota2: A letra foi retirada hoje 1 de Abril (até parece mentira) às 15:50 do blog do Ludwig.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Uma resposta crítica e um elogio merecido.
Recentemente li, pela primeira vez, uma tentativa de análise metódica e racional à velha questão tão em voga actualmente se a religião tem mais efeitos positivos ou negativos nas sociedades. Existem até alguns artigos sociológicos com resultados interessantes (nomeadamente respeitante à relação entre religiosidade vs confiança e religiosidade vs cooperação). Mas neste caso o texto que me merece atenção chama-se “Existe correlação entre religiosidade e uma sociedade melhor?” e foi a convite do próprio autor que visitei o portal ateu onde o estudo foi publicado. Este sítio introduz essa análise como sendo um “imenso privilégio (…) apresentar este magnifico trabalho de Sobre este ponto permitam-me contar uma breve história que se passou comigo recorrentemente ao longo da universidade. Nada tem que ver com este caso mas reflecte bem o que sinto perante a troca de ideias...
Sempre tive por hábito questionar os meus colegas aquando das suas apresentações de trabalhos e era meu costume incentivá-los a fazerem o mesmo sobre os meus trabalhos. Nunca me revi na posição de muitos deles que achavam ofensivo e ameaçador colocar perguntas e criticar o trabalho dos colegas, já que, isso seria “tramar os outros” e o importante era “passar”. O importante era vencer o sistema e ser doutor.
Dubitando ad veritatem pervenimus disse Cícero no século primeiro antes de Cristo. E como tinha razão!? É duvidando que alcançamos a verdade. Sempre julguei que uma universidade servia para tentarmos alcançar a verdade e não para conseguirmos ser doutor.
Sirvo a verdade não me sirvo dela.
Por isso mesmo lutarei sempre contra o querer vencer a favor do querer saber. Porque vencer sem saber é não saber por que se venceu, enquanto que quem sabe nunca deixa de vencer. Não saber por que se venceu é pequena vitória sem triunfo nem proveito, mas ao conhecer, ainda que perdendo, é maior vitória porque se aprendeu mais.
É assim que a Ciência funciona e é por isso que não posso deixar de prestar esta homenagem ao meu amigo e mestre
Comecemos então pela introdução onde escreve o autor:
“Discutimos (…) se a sociedade é melhor por ser mais religiosa ou menos religiosa. (…) Contudo interessa saber, de forma objectiva e pragmática, se a religiosidade/ateísmo traz benefícios ou malefícios à sociedade. Eu também tenho a minha opinião, mas abstenho-me de a transmitir pois é fundamentada em dados não mensuráveis. (…) somos poucos os que usamos dados objectivos, estatísticos e pragmáticos para suportarmos a nossa convicção política. A situação é quase semelhante com a religiosidade.”
Importa dizer que este trabalho tem o mérito de não se limitar a ser uma crónica de opinião (como o texto que agora lêem) e apresentar dados concretos de uma forma “objectiva”, “pragmática” e por escrito de forma a poderem ser rebatidos. Não discordo da objectividade e o pragmatismo do texto, o que contesto é que esteja correcto.
Logo no início aquilo que mais salta à vista é a dificuldade que existe em definir os termos usados ao longo da análise, o próprio autor o diz:
“Procuro fazer uma análise estatística que meça a correlação da ‘religiosidade’ ou do ‘ateísmo’ com a ‘bondade’ ou ‘aspectos positivos da sociedade’, mas isto traz imediatamente dificuldades: como medir a religiosidade ou ateísmo, bondade ou maldade, positivo ou negativo? Alguns destes conceitos são altamente subjectivos e são raros os dados concretos sobre eles. E como medir tais conceitos em pessoas ou em sociedades? Por uma questão de praticabilidade, escolhi a análise de país a país, pois existem dados estatísticos disponíveis.”
Aqui o critério usado foi a praticabilidade (ser prático) e aproveito apenas para dizer que lá por ser prático não quer dizer que esteja correcto. Aliás muitas vezes o que é prático não está nada certo. Tantas são as vezes em que ao querermos resolver um problema que acabamos por chegar a resoluções não verdadeiras que me vou escusar a dar exemplos. Mais digo, antes de ser prático tem de ser válido, até por que se não for válido nem pratico é. Presumo que a praticabilidade foi também utilizada como critério para se escolherem os índices utilizados. Julgo que neste caso estamos perante uma simplificação não válida e logo impraticável se quisermos medir a “ bondade”, “maldade”, “positivo” e “negativo” através dos índices escolhidos. Aposto que a Alemanha Nazi do final dos anos trinta do século passado tinha os melhores índices de, “Desenvolvimento Humano”, “Produção científica”, “PIB per capita”, “Mortalidade Infantil”, “Taxa de Alfabetização” e “Homicídios”de toda a sua História senão mesmo de todo o mundo. E parece-me evidente que lá por nunca ter estado tão desenvolvida segundo esses índices e tão à frente de todo o mundo nessa altura, daí não se pode tirar que era uma sociedade onde reinava a “bondade” e que era a melhor em qualquer um dos outros “aspectos positivos de uma sociedade”. Ou pode?
Outro termo utilizado e que parece distorcer ainda mais a análise é a definição de “irreligiosidade/ateísmo”. Se incluímos no mesmo saco: ateísmo, agnosticismo, deísmo, cepticismo, livre pensamento, humanismo secular, secularismo geral e heresia, agruparmos alhos com bugalhos com formigueiros e com porta-aviões só por nenhum conter elefantes no seu interior. Não estamos a agrupar todos os ateus mas sim uma confusão de correntes de pensamento que nada tem em comum a não ser não pertencerem a nenhuma religião
Continuando a ler o trabalho, ao chegar aos métodos, não posso deixar passar um erro que merece ser corrigido.
O Human Development Index (HDI) é calculado através de uma fórmula que inclui os seguintes índices:
Sem entrar em qualquer pormenor matemático, reparemos que no índice já está contabilizada taxa de literacia (LR) que é exactamente a mesma utilizada pelo autor mas sobre o nome de Taxa de Alfabetização. Não é de espantar que a correlação encontrada numa se manifeste na outra, é redundante. Estamos a analisar a mesma variável mais ou menos directamente, mas ela está sempre lá. O Mesmo se passa com a Mortalidade Infantil versos HDI. Neste mesmo índice também consta a Esperança de vida (representado por LE) mas como se sabe este índice está muito dependente da Mortalidade Infantil e é por isso que seria mais útil, para não se correr nenhum risco, que se utilizasse a Esperança de vida aos 5 anos. Desta forma excluiríamos a influência de um índice no outro, como nada disto foi feito outra redundância foi somada à análise.
A única coisa que se pode estranhar é o facto de o Produto Nacional Bruto (PIB = GDP em inglês) per capita não apresentar correlações semelhantes já que também faz parte do HDI. Mas só se estranha enquanto não soubermos que o GDP que é utilizado na formula de cálculo do HDI tem lá um parênteses com PPP escrito, que quer dizer
Outro factor que é apresentado e convêm prestar alguma atenção é o valor de R2 . Este coeficiente de determinação representa a proporção da variabilidade nos dados que se pode atribuir ao modelo estatístico testado. Este coeficiente varia entre 0 e 1 e quanto mais próximo de 1 melhor, já que, se tivermos um valor de R2= 0,9 podemos dizer que 90% da variância de Y pode ser atribuída a X. Neste caso o nosso X é a Irreligiosidade e os nossos Y são todos os outros índices. Reparemos que o valor mais alto que temos é 0,179 o que quer dizer que as variações nas percentagens de Irreligiosidade têm uma influência (que pode até nem ser exclusiva) de 18% na percentagem de alfabetos de um país. Ou seja a percentagem de religiosos de um país apenas é (possivelmente) responsável por 18% das variações nas taxas de alfabetização, e nem é liquido o que causa o quê. Todos os outros valores de R2 são ainda menores sendo a maioria deles muito próximos de zero. Se realmente a religião fosse algo de tremendamente negativo para a “bondade” de um país então isso talvez se pudesse verificar num elevado valor de R2 entre Irreligiosidade/homicídios ou Irreligiosidade/Produção científica. O R2 nesta ultima correlação é deveres interessante já que aparentemente parece sugerir que a produção científica de um pais em nada é influenciada pela percentagem de não religiosos pois o R2 = 0. E era este um dos argumentos que recorrentemente aparece quando leio artigos de opinião ou livros a defenderem o fim das religiões. Defendem que as religiões criam sociedades onde se estabelece um clima de respeito pelo irracional e pelos dogmas (verdades indiscutíveis) e torna as sociedades menos interessadas em Ciência, o que pode ter implicações no desenvolvimento e bem-estar do povo. Curiosamente sempre foi um argumento que eu, até certo ponto, aceitava mas aparentemente nem isto se verifica com os dados disponíveis.
Ainda outro ponto na metodologia que pode influenciar os resultados é se os dados são relativamente comparáveis no tempo e na forma de amostragem. Isto é, se as taxas de irreligiosidade não foram medidas aproximadamente na mesma altura que todas as outras (pelo que pude verificar não foram) então estamos a comparar percentagens recolhidas em alturas diferentes e pouco ou nada podemos dizer. Ainda assim, não me parece que as diferenças de poucos anos que existem entre as recolhas dos índices utilizados sejam suficientes para ferir de morte as conclusões apresentadas. O que pode ter uma influência maior nos resultados encontrados é a metodologia utilizada para recolher cada um dos índices. Se uns foram recolhidos através de questionários de rua, outros por chamada telefónica e outros ainda correspondem a censos nacionais então estamos mais uma vez a lidar com amostragens que podem conter vieses diferentes.
É comum criticar-se algumas análises estatísticas onde a recolha que é feita distorce as extrapolações que queremos retirar… e percebe-se porquê. Se, por exemplo, perguntarmos por telefone, durante o nosso horário de trabalho, a mil pessoas em que partidos vão votar não estamos a recolher uma amostragem que seja uma boa aproximação da população portuguesa que vota. Porquê? Porque a amostragem foi feita durante o normal horário de trabalho onde temos maior tendência de encontrar pessoas que não trabalham fora de casa a essa hora. O que fizemos foi distorcer a amostragem onde os desempregados, reformados, domésticas e jovens se encontram sobre-representados (já que são estes que têm maior tendência para se encontrarem em casa e atenderem o telefone). Desta forma a nossa amostra não irá representar a população que irá votar pois contem um viés ou distorção associada. Existem formas de minimizar estes vieses e para facilitar a análise assumirei que todas as fontes que forneceram os dados são competentes para o fazer. Mas existem sempre vieses, que podem ser negligenciáveis dentro de cada recolha de dados mas se somados numa meta-analise como esta podem influenciar as correlações efectuadas. Assim, gostaria apenas de alertar para mais este perigo, já que as fontes utilizadas foram muitas e as metodologias de amostragem foram seguramente diversas. Um escrutínio mais aprofundado poderia, por uma questão de segurança, por de parte alguns países do estudo. Apesar de ter tentado, não me dediquei a esse escrutínio e desta forma estou só a alertar para outros possíveis erros associados. A título de exemplo a maioria os dados de Irrreligiosidade de 54 países retirados da Wikipedia baseiam-se num estudo cuja fonte é um link em japonês.
Dito isto, não quero deixar de tecer um forte elogio a este meu mestre por ter tido a honestidade de não se ficar por palavras e intenções e tentar rebater através de dados palpáveis um dos cinco argumentos que aqui apresentei no post “Acabar com a religião? Por que não.” De facto, não sei se ele o leu, mas o que posso constatar é que pelo menos tentou, casualmente ou não, refutar que “Existe correlação entre religiosidade e uma sociedade melhor” corroborando (ainda que parcialmente) o ponto 2 do meu post onde defendi que é necessário provar que “A existência da Religião tem mais efeitos negativos do que positivos na humanidade.” Não vejo como se pode defender um mundo totalmente secular sem se provar esta ultima afirmação. Se de facto não existe qualquer correlação entre religiosidade e uma sociedade melhor/pior então como podemos dizer que um mundo sem religião é melhor que com ela?
Claro que o facto de não existir correlação (e para este efeito) nem causalidade nada nos diz sobre se devemos ou não defender um mundo sem religiões. Não haver correlação (nem causalidade) apenas nos diz que a religiosidade de um povo não influencia a sua bondade (seja lá a forma com que meçamos a “bondade de um povo” ou uma “sociedade melhor”). E se, a religiosidade, é irrelevante para melhorarmos ou piorarmos uma sociedade então porque deveríamos tentar acabar com ela? Quanto muito a religiosidade seria como o gosto por desporto.
Deixem-me explicar.
Em principio gostar de desporto ou não ligar nenhuma a desporto nenhum não deve ter qualquer correlação com os “Homicídios”, “Desenvolvimento Humano”, “Produção científica”, “PIB per capita”, “Mortalidade Infantil” ou “Taxa de Alfabetização”. Já agora, seria interessante testar estas correlações. Mas se, como espero, não existir nenhuma correlação significativa entre estes factores que devemos fazer? Devemos defender que no mundo só cabem as coisas que contribuem de forma estatisticamente significativa para uma “sociedade melhor”? Ou se existem algumas coisas que são neutras então cada um faça o que quiser e deve haver liberdade total para cada um escolher ser adepto de um clube desportivo ou não ligar patavina a desporto algum? E se isto é válido para tudo o que é neutro nas suas correlações para com uma “sociedade melhor”, como o é gostar de futebol, então por que razão já não é isso válido quando o tema é a religiosidade?
Entrando agora nas duas conclusões do trabalho constatamos que a primeira diz não existir “correlação significativa entre irreligiosidade e taxa de homicídios, produção científica, e PIB nominal per capita.”. Se não há nenhuma correlação estatisticamente significativa, então não podemos afirmar que por termos um país com mais crentes que a Albânia, a China ou a Espanha, vamos ter mais ou menos homicídios, artigos científicos ou vamos ser menos produtivos. Neste ponto parece que o trabalho não é conclusivo e se não o é não ajuda em nada a provar o ponto dois acima apresentado quando se defende o fim da religião. Nestes três índices parece que estamos de acordo.
Parece, mas não estamos, já que estou convencido que podemos encontrar não só correlações estatísticas como explicações causais para existirem menos tendência para homicídios em pessoas crentes do que nas ateias. No entanto isto é uma opinião minha que teria de ser comprovada. Até lá só posso transmitir que me parece lógico que, numa sociedade onde toda a gente acorda ao domingo de manhã bem cedo para ir ouvir “Não matarás” e “Ama o teu próximo”, onde todos cumprimentam o estranho que está ao seu lado e reflectem sofre os seus erros prometendo publicamente corrigi-los, existirá menos crime e violência do que numa outra onde todos são deixados aos seus critérios. Não é, sem dúvida, o único factor que influencia mas de certo que deve pesar. Lá por a terra se não deixar salgar não quer dizer que o sal não deva ser atirado sobre ela. Grande Vieira que já o pregava aos peixes.
Que devemos então dizer sobre a segunda conclusão do trabalho? “Existe correlação significativa entre irreligiosidade e índice de desenvolvimento humano (0,31), Mortalidade Infantil (-0,367), e alfabetização (0,423).” Poder-se-ia resumi-la dizendo que a análise efectuada demonstra uma correlação significativa entre a irreligiosidade e o índice de desenvolvimento humano. As outras duas correlações já se encontram reflectidas na primeira. Ainda assim é necessário despistar muitos outros factores que me parecem, esses sim, verdadeiramente correlacionados com a “infelicidade” e “maldade” no mundo.
Não terá uma real influência causal a fome? a miséria? a desigualdade? a falta de justiça? de liberdade? o facto de as fronteiras tantas vezes não corresponderem às fronteiras de coração e de identidade? Não terão estes factores um peso decisivo sobre a estabilidade, desenvolvimento e prosperidade de um país? E será que ao dizermos que “uma sociedade com maior número de irreligiosos (termo geral que inclui ateus, agnósticos, deístas, cépticos, livre pensadores, humanistas seculares, ou heréticos) apresenta melhores índices médios de desenvolvimento humano(…)” estamos de facto a descobrir algo de novo? Ou uma sociedade com uma maior igualdade entre número de ateus, agnósticos, deístas, cépticos, livre pensadores, humanistas seculares, heréticos e (já agora) religiosos, é uma sociedade mais livre e plural onde todos temos lugar e onde cada um, pensando pela sua cabeça, poderá realizar-se como se sentir mais feliz? Não será tudo isto verdade?
Talvez nada disto possa ser medido de forma racional e objectiva sem uma aproximação demasiado simplista e se torne impraticável podermos chegar a conclusões de causalidade entre os diversos factores. Ainda assim podemos tentar e gostaria de deixar algumas sugestões de análises futuras. Assim, falta testar:
- Correlação entre as diferentes religiões e sociedade melhor (suspeito que umas correlações são positivas e outras negativas).
- Correlação entre sociedades desiguais e sociedade melhor (aposto que aqui teremos uma real correlação = causalidade).
- Correlação dentro de cada sociedade (e.g. entre cidades menos e mais religiosas)
- Diferenças dentro de cada país entre ateus e religiosos no que diz respeito às correlações testadas pelo Octávio e no que diz respeito às propostas aqui.
- Diferenças entre cada indivíduo (tentado medir as diferenças nos contributos individuais para uma “sociedade melhor” entre quem era ateu e se converteu versus quem era crente e perdeu a fé).
- Diferenças nos índices ao longo do tempo dentro de cada país (entre países que foram regidos com separação da Igreja e do Estado e passaram a ser regidos sem haver qualquer separação, e vice-versa).
- Repetir todas as análises mas substituir irreligiosidade por ateísmo (definido como a convicção íntima da não existência de nenhuma forma de Deus) e/ou por ateísmo militante (definido como o ateísmo mas defendendo ainda a luta, armada ou não, para destruição e desaparecimento de todas as formas de religião).
Finalmente, e ainda se tudo o que disse estiver errado e tudo o que o Octávio disse estiver certo, apenas podemos concluir (com base na análise efectuada) que os efeitos actuais das pessoas religiosas no mundo são prejudiciais para os índices em causa nas circunstâncias actuais. Mais nada. Nada nos diz sobre o passado e sobre o futuro, assim como nada podemos extrapolar sobre se essas pessoas que se assumem religiosas estiverem em minoria ou se desaparecerem. Como não existem países assim, nada podemos dizer. E todos os outros restantes pontos que apresentei no meu post do ano passado ficam ainda por rebater. Assim, as ultimas linhas desse post podem ser repetidas aqui, um ano depois, com uma estranha actualidade e (quase) sem alterações:
“Agora, no que diz respeito a um mundo sem Religião não vejo (da parte de quem deseja fervorosamente viver num mundo ateu) provas [quase] nenhumas de nada disto, vejo apenas meros palpites baseados em: suposições, especulações, convicção pessoal, desejos impulsivos, experiências individuais... Bom, resumindo: pura fé...
…e é aí que os meus caros amigos ateus militantes não estão em muito melhor posição que os fundamentalistas religiosos ao afirmarem (sem o demonstrar) que um mundo como eles o imaginam seria muito melhor para todos, só revelam menos coragem ao ponto de não se fazerem explodir pelo que acreditam.”
Agradeço profundamente a Octávio Mateus por ter tido a paciência de ler e comentar com muita pertinência as minhas humildes observações aqui expostas.
Agradeço ainda todas as outras pessoas que me deram os seus comentários de diversas formas.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
400 anos depois um obrigado a Vieira.
Entrando pois na questão, se o mundo é mais digno de riso ou de pranto; e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava Heraclito: eu, para defender, como sou obrigado, a parte do pranto, confessarei uma cousa e direi outra. Confesso, que a primeira propriedade do racional é o risível: e digo, que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, o pranto é o uso da razão. Para confirmação desta, que julgo evidência, não quero mais prova que o mesmo mundo, nem menor prova que o mundo todo. Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há-de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece.Que é este mundo, senão um mapa universal de misérias, de trabalhos, de perigos, de desgraças, de mortes? E à vista de um teatro imenso, tão trágico, tão funesto, tão lamentável, aonde cada reino, cada cidade e cada casa contìnuamente mudam a cena, aonde cada Sol que nasce é um cometa, cada dia que passa um estrago, cada hora e cada instante mil infortúnios; que homem haverá (se acaso é homem) que não chore? Se não chora, mostra que não é racional; e se ri, mostra que também são risíveis as feras. Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os homens e um filósofo tão sábio e se não só via este mundo, mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria, não deste nosso mundo, mas daqueles seus mundos. E com razão; porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. É certo, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo. Como pois se ria ou podia rir-se Demócrito do mesmo mundo e das mesmas cousas, que via e chorava Heraclito?
A mim, Senhores, me parece, que Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heraclito ambos choravam, cada um ao seu modo. Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito ria sempre: logo nunca ria. A consequência parece difícil e é evidente.
O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração e cessando a novidade ou a admiração, cessa também o riso; e como Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, e o que é ordinário e se vê sempre não pode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso. Nem se pode dizer que Demócrito se incitava a rir de alguma cousa que visse ou encontrasse de novo; porque sempre e em todo o lugar ria, e quando saía de casa já saía rindo; logo ria do que já sabia, logo ria sem novidade nem admiração; logo o que nele parecia riso não era riso. Confirma-se mais esta verdade com o motivo e intenção de Demócrito; porque não pode haver riso que se não origine de causa que agrade: tudo o de que Demócrito se ria, não só lhe desagradava muito, mas queria mostrar que lhe desagradava; logo não se ria; e se não ria, que era o que fazia, a que todos chamavam riso? Já disse que era pranto e que Demócrito chorava, mas por outro modo. Ora vede.
Há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso: chorar com lágrimas é 166 sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva. Para prova da primeira e segunda diferença de chorar com lágrimas, ou sem elas, é notável o exemplo, que refere Heródoto de Psamnito, rei do Egipto. Perdendo Psamnito o reino, viu em primeiro lugar suas filhas vestidas como escravas e não chorou, viu depois seu filho primogénito descalço e carregado de ferros com as mãos atadas e um freio na boca e não chorou; e vendo este mesmo Psamnito e com o mesmo coração, que um seu antigo criado pedia esmola, derramou infinitas lágrimas. Oh grande rei e grande intérprete da natureza! Chora com lágrimas a miséria do criado e sem lágrimas a desgraça dos filhos; assim respondeu ele à pergunta de Cambises: Domestica mala graviora sunt, quam ut lacrimas recipiant. Com o mesmo pensamento, não menos régio, nem menos varonil, Hécuba, com a coroa perdida e a pátria abrasada, proibiu as lágrimas às damas de Tróia, dizendo-lhes assim:
Quid effuso genas fletu rigatis? Levita perpessae sumus, si flenda patimur.
A dor moderada solta as lágrimas, a grande as enxuga, as congela e as seca. Dor que pode sair
pelos olhos, não é grande dor; por isso não chorava Demócrito; e como era pequena demonstração da sua dor não só chorar com lágrimas, mas ainda sem elas, para declarar-se com o sinal maior, sempre se ria. Nada digo que seja contrário aos princípios da verdadeira filosofia e da experiência. A mesma causa, quando é moderada e quando é excessiva, produz efeitos contrários: a luz moderada faz ver, a excessiva faz cegar; a dor, que não é excessiva, rompe em vozes, a excessiva emudece. Desta sorte a tristeza, se é moderada, faz chorar; se é excessiva, pode fazer rir; no seu contrário temos o exemplo: a alegria excessiva faz chorar e não só desta as lágrimas dos corações delicados e brandos, mas ainda dos fortes e duros. Quando Minúcio, livre do cativeiro, apareceu ao seu exército, que era o romano:
In laetitiam tota castra effusa sunt, ut praegaudio militibus omnibus lacrimae manarent, diz Plutarco.
Pois se a excessiva alegria é causa do pranto, a excessiva tristeza porque não será causa do riso? A ironia tem contrária significação do que soa; o riso de Demócrito era ironia do pranto; ria, mas irònicamente, porque o seu riso era nascido de tristeza, e também a significava; eram lágrimas transformadas em riso por metamorfoses da dor; era riso, mas com lágrimas, como aquele de quem disse Estácio:
Lacrimosos impia risus audiit.
Na guerra morrem muitos soldados rindo; e a razão é, diz Aristóteles, porque são feridos no
diafragma. Não ria Demócrito como contente, ria como ferido: recebia dentro do peito todos
os golpes do mundo e tão malferido ria. Os olhos com injustiça se poderão queixar desta minha filosofia: o pranto chamava-se assim, porque se batiam as mãos uma com a outra, quando se chorava; porque para chorar não são precisos os olhos, e não seria próvida a natureza se, havendo sido a origem de tantos pesares, lhes desse um só desafogo; e se choram as mãos, a
boca porque não há-de chorar? Heraclito chorava com os olhos, Demócrito chorava com a boca; o pranto dos olhos é mais fino, o da boca é mais mordaz; e este era o pranto de Demócrito.
De sorte, que na minha consideração, não só Heraclito, mas Demócrito chorava, só com a diferença, de que o pranto de Heraclito era mais natural, o pranto de Demócrito mais esquisito; e
tudo merece este mundo, digno de novos e esquisitos prantos, para ser bastantemente chorado.
Mas porque esta minha suposição me separa do problema e pode parecer, que, como muitas vezes sucede, me aparte da opinião comum para fugir da dificuldade: seja embora o riso de Demócrito verdadeiro e próprio riso, apareçam 167 em juízo um e outro filósofo, para que ouvidos ambos, se veja claramente a razão de cada um, e confio do merecimento da causa que será tão justa a sentença, que Demócrito saia chorando, e Heraclito rindo.
Séneca, no livro De Tranquillitate, falando destes dous filósofos, dá a razão por que sempre ria
um e chorava outro, com estas judiciosas palavras:
Hic, quoties in publicam processerat, flebat, ille ridebat: huic omnia, quae agimus, miseriae, illi ineptiae videbantur.
Demócrito ria, porque todas as cousas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heraclito chorava, porque todas lhe pareciam misérias: logo maior razão tinha Heraclito de chorar, que Demócrito de rir; porque neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias, e não há ignorância que não seja miséria.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Obrigado aos "sábios" de Roma
23.01.2008, Rui RamosNo dia em que não pudermos ouvir Bento XVI, seremos mais obscurantistas e menos livres
"Há dias que quase toda a gente os anda a condenar. Parece-me que chegou a altura de lhes agradecer. Falo dos "sábios" que a semana passada, guiados por um velho estalinista e apoiados pela polícia de choque da "antiglobalizaçã
Parece que há gente, na Europa, a quem as religiões voltaram a meter medo. Depois do 11 de Setembro, a religião tomou o lugar que o nacionalismo tinha no tempo da guerra da Jugoslávia. Não havia então semana sem mais um livro a denunciar o perigo do nacionalismo, a desconstruir o seu insidioso apelo, e a examinar as suas sinistras raízes. Agora, é a vez da fé em Deus. Subitamente, vemos andar novamente por aí as velhas casacas e chapéus de coco do anticlericalismo. Acontece que, em vez de marcharem contra o jihadistas, ei-los a avançar contra as igrejas cristãs, e especialmente contra a católica. Enganaram-se de século? É por hábito? Ou dá-lhes mais jeito mostrar contra o Papa a coragem que lhes falta perante os jihadistas? Pois: morrer pelas ideias, mas de morte lenta.
Sim, na Europa, até ao século XIX, as igrejas de Estado resistiram ao pluralismo e à sua expressão. Mas a intolerância e a perseguição que milhões de europeus sofreram nos últimos duzentos anos não se ficaram a dever às religiões tradicionais, mas às modernas ideologias laicas. Os deuses dos que não acreditam em Deus foram sempre os mais sedentos. Em nome do Ente Supremo, da ciência ou do racismo pagão, republicanos jacobinos, marxistas-leninista
O fundamentalismo laicista trata toda a convicção religiosa como o vestígio absurdo de uma idade arcaica, intolerável fora do espaço privado. Mas a fé não é fácil, não é uma opção primitiva nem simplesmente um preconceito. Ou antes: pode ser tudo isso, mas pode também corresponder à mais forte exigência intelectual e à disponibilidade para enfrentar profundamente as mais difíceis de todas as dúvidas. Exactamente, aliás, como o ateísmo: há quem o viva como um dogma beato, muito contente consigo próprio, ou quem o tenha adoptado como a forma mais conveniente de não pensar. Muitos são hoje ateus pelas mesmas razões por que teriam sido beatos no século XVII. E se mandam calar Bento XVI é porque, há quatro séculos, teriam mandado calar Galileu.
As campanhas contra a religião como um óbice à concórdia e à modernidade erram frequentemente de alvo. A Irlanda e a Palestina são confrontos de nacionalismos com origens seculares. O jihadismo, como argumentou John Gray, deve tanto ou mais às ideologias laicas europeias do que à tradição islâmica. E na última década, partidos de inspiração religiosa contribuíram muito mais para a modernização e liberdade da Índia e da Turquia do que os seus adversários laicos. Nos EUA, a religião pertence ao espaço público, sem que o Estado deixe de continuar separado de qualquer igreja.
Hoje em dia, é nos crentes que certos princípios fundamentais para a nossa liberdade encontram a voz mais desassombrada. Por exemplo, a ideia da dignidade e da autonomia da pessoa como limite para experiências políticas e sociais. Numa cultura intoxicada pela hubris da ciência e das ideologias modernas, certas religiões conservaram, melhor do que outros sistemas, a consciência e o escrúpulo dos limites. O mesmo se poderia dizer da questão da verdade, que a ciência pós-moderna negou, sem se importar de reduzir o debate intelectual ao choque animalesco de subjectividades.
Não, não é preciso fé para perceber que das religiões reveladas (e doutras tradições de iniciação espiritual) depende largamente a infra-estrutura de convicções e sentimentos que sustenta a nossa vida. O seu silenciamento no espaço público não seria um ganho, mas uma perda. No dia em que não pudermos ouvir Bento XVI, seremos mais obscurantistas e menos livres. Obrigado aos "sábios" de Roma por nos terem dado ocasião para lembrar isto. "
Historiador
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Ayaan Hirsi Ali

Para quem tiver um mínimo de curiosidade sobre o Islão real visto por dentro. Sentido por uma mulher.
Sem medo de dizer a verdade, sem preconceitos sem eufemismos. Uma visão pessoal e lúcida.
Não é mais um livro sobre uma mulher queimada ou vendida. É sobre uma muçulmana, apenas.
De Mogadíscio onde sofreu a excisão feminina e se casou obrigada chegou a deputada no parlamento Holandês. Ela cresceu e abriu-se ao Mundo, à Vida. É uma lição sobre coragem e lucidez.
Desculpem-me o desabafo mas este livro é assustadoramente coincidente com o que sempre pensei sobre o Islão.
Leiam, atrevam-se!
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
IDiotas.
Este pseudo-documentário não passa de um chorrilho de falsidades apresentadas da forma mais desonesta possível com o intuito de convencer os espectadores menos informados.
Desculpem o desabafo, mas é revoltante para um biólogo assistir a tantas mentiras e meias-verdades sem mostrarem um pingo de vergonha na cara.
Fé é acreditar sem provas.
Acreditar forjando as provas é estupidez.
Mais uma tentativa ridícula de fazer xeque-mate num jogo de futebol.
(Nem me atrevo a colocar o resto do programa, mas se tiverem curiosidade podem encontrar o resto no YouTube)
sábado, 24 de fevereiro de 2007
70 Milhões de peregrinos em Allahabad (Índia).
Chama-se Maha Kumbh Mela (Maha -Grande; Kumbh - Urna; Mela - Festival).
Nestas fotografias de alta-resolução, tirada pelo satélite Ikonos notam-se as diferenças brutais no leito do rio que o festival provoca.
A fotografia da esquerda foi tirada em Maio de 2000, à direita vemos outra tirada a 23 de Janeiro de 2001, durante o festival, podem-se distinguir inúmeras tendas em terra e pequenos pontinhos no meio do rio, são pessoas a banharem-se nas águas sagradas do Ganges e do Yamuna.

(Clicar nas fotos para aumentar)
Acabar com a Religião? Por que não.
Talvez não seja claro para muitos ateus, que professam o fim da fé e das religiões, o que implica defender um mundo totalmente secular.Afirmam que nada seria melhor e mais eficaz para exterminar todos os grandes males mundiais. De acordo com estes ateus através da argumentação, lógica, discussão pública, alterações sociais e da luta pacífica (e violenta em alguns casos) poderemos um dia viver num mundo sem Deuses, Religiões, Dogmas ou Fé. Mas será isso moralmente defensável?
Será que Dawkins tem razão quando se refere à Religião como «A raiz de todo o Mal»?
Será isto verdade? Que implicações terá uma conclusão como esta?
E que premissas têm de se verificar para que possamos aceitar lutar por um mundo assim?
Como é lógico, para compreender o problema, não basta definir o termo "religião" como tudo aquilo que produz o mal.
Seria circular.
Se alguém apresentasse um exemplo de um bem que resultasse da religião, como a Obra da Madre Teresa em Calcutá, bastaria dizer que isso não era exactamente algo com uma origem realmente religiosa, já que, a verdadeira Religião (por definição) é raiz de todo o mal. Assim, o exemplo de Calcutá não encaixaria na nossa definição de um acto religioso. E mesmo que apresentássemos um outro contra-exemplo de atrocidades cometidas por regimes seculares como os de Pol Pot, Mao, Estaline ou Hitler poderia ser argumentado que esses regimes são outras formas de Religião já que a verdadeira Religião é a raiz de todo o Mal.
É uma variante do famoso argumento do no true scotsman, para melhor o apresentar vejamos o que escreveu Antony Flew em 1975:
"Imagine Hamish McDonald, a Scotsman, sitting down with his Press and Journal and seeing an article about how the "
Este argumento é uma falácia, já que a definição de Escocês não depende de se cometer ou não crimes horrorosos. Mas, para mantermos a afirmação de que nenhum Escocês cometeria um crime desses, temos de alterar a sua definição caso nos deparemos com uma excepção: alteramos Escocês para verdadeiro Escocês e pronto, resolvemos o problema. Ou seja um Escocês deixaria de ser alguém que nasceu na Escócia (ou que tem a nacionalidade escocesa) para passar a incluir mais um requisito: não cometer atrocidades; mas isso era exactamente o que queríamos testar! Alterando a definição, estamos a excluir (ou incluir) arbitrariamente do termo em causa precisamente aquilo que queremos testar, é no mínimo estúpido e no máximo desonesto.
O mais curioso é que este exemplo foi utilizado por A. Flew, um ateu convicto, para criticar as definições de termos como cristãos ou religiosos e, de facto, expôs alguns argumentos falaciosos que defendem que nada de mal pode resultar das Religiões. Actualmente são raras as pessoas que acreditam nisso, é um lugar comum criticar a Inquisição, a opressão de Galileu Galilei, etc mesmo pela própria hierarquia da Igreja Católica.
Triste é deparar-me tantas vezes com a incompreensão desta falácia quando discuto com certos ateus fervorosos sobre a independência do Mal.
Quando o erro serve para provar que a Religião só pode ser a "raiz de todos os males" aí, a falácia do verdadeiro Escocês, já não é tão evidente.
No entanto nada disto nos ajuda a perceber se um mundo sem religiões ficaria ou não melhor.
Para se poder concluir que um mundo totalmente secular seria preferível a um mundo religioso temos de provar cinco pressupostos:
1º O que todas as religiões acreditam é falso (ou que mesmo não sendo falso, ou não se conseguindo provar a sua falsidade, é preferível vivermos como se fosse).
2º A existência da Religião tem mais efeitos negativos do que positivos na humanidade.
3º O mal resultante ao se destruir a Religião não produzirá um mal ainda maior que o que resultaria deixando tudo como estava.
4º O modelo alternativo que propomos para o mundo é melhor que o actual paradigma.
5º É possível acabar com a Religião.
Basta que uma destas premissas não seja verdade para não valer a pena lutar pela abolição da Religião das nossas sociedades. Os cinco pontos são independentes e necessários para que se conclua que a humanidade não pode, nem deve tolerar esse "mal". Só assim reunimos as condições necessárias e suficientes para valer a pena acabar com a Religião, bastaria que apenas um ponto não se verificasse para que isso não fosse defensável.
Assim sendo, suspeito sempre de ataques contra a Igreja que se limitam a apresentar um conjunto de males resultantes da Fé seguidos de uma lista dos gloriosos feitos da Ciência para depois concluir que a primeira é horrorosa e que a segunda é a Luz do mundo.
Torna-se então imperativo mostrar que o núcleo das crenças religiosas é falso, caso contrário é bom que nos comportemos como Deus nos aconselha.
(Em caso de dúvida parece ser mais prudente seguir o exemplo da aposta Pascal?)
De qualquer forma, o ponto 1 parece-me bastante difícil de provar já que muitas das afirmações religiosas são por definição não “falseabilisáveis”. Nunca poderemos provar que algo imaterial não existe (ou que é falso) já que é impossível executar testes em algo imaterial como almas, anjos, ou Deus.
Quando muito podemos dizer que Popper tinha razão, e que, respeitando a sua definição de Ciência o que não é empiricamente refutável não diz respeito à Ciência. Neste caso, seguindo uma abordagem estritamente científica, comporta-mo-nos como se as afirmações religiosas que não são empiricamente refutáveis fossem falsas. Mas seria desejável abordar todas as nossas questões quotidianas do ponto de vista estritamente científico? O que pode a ciência estritamente empírica dizer-nos sobre a estética e a Arte? Sobre o amor e a paixão? Não são todas estas realidades imateriais e empiricamente não refutáveis? Serão por isso menos válidas e vitais à humanidade?
Viveríamos num mundo melhor caso partíssemos todos do pressuposto que essas realidades não existem, ou não são úteis, só porque a Ciência não é a melhor linguagem para as descrever? Duvido.
Não chega dizer que em nome da religião se fizeram (ou se fazem) coisas terríveis. Dizer mal da religião é facílimo (se as nossas fontes forem o jornal nacional da TVI), mas isso é uma enorme simplificação do que é ser-se religioso.
Eu também posso fazer uma lista gigantesca sobre: tsunamis, afogamentos, naufrágios, desastres ecológicos, cheias, secas, tempestades, chuvas ácidas, epidemias devidas a águas contaminadas, dizer que a maior parte da água que existe não é potável e que a maior parte da que o é não está facilmente acessível já que se encontra sob a forma de gelo, etc…. Nada disto prova que água faz mais mal do que bem à humanidade.
Com o ateísmo militante acontece algo de semelhante, assume-se que basta dizer mal das religiões para se poder concluir que são algo que se deve combater.
Duvido sinceramente que o bem que resulta (e deve resultar) das religiões (principalmente de algumas delas) não exceda o mal que pode (e não deveria) surgir das religiões. E já agora, duvido ainda mais que alguém consiga fazer um honesto balanço de todos os males e bens que já resultaram de todas as religiões sem dar em louco primeiro.
Relativamente ao ponto 3 pensemos num caso análogo (para não sairmos dos líquidos): o da proibição das bebidas alcoólicas. Para surpresa de muitos, hoje em dia, até sabemos que o consumo do bebidas alcoólicas também produz alguns benefícios na nossa saúde mas o que é claro para todos é que o álcool produz mais efeitos negativos que positivos. Agora, porque não proibimos o álcool já que ele faz mais mal que bem?
Uma explicação simples (que está por detrás de muitas das leis actuais) é que o mal que resultaria de o proibir seria ainda maior que o que é provocado pelo seu consumo livre. Basta recordar a lei seca na América do século passado.
Torna-se então evidente que ao advogarmos o fim da religião como um bem a priori devemos contabilizar o mal que resultaria da implementação desse bem. Mais uma vez nunca vi nenhum estudo que se debruçasse seriamente sobre este assunto.
Se não estivermos certos do ponto 3 como podemos propor o fim da Fé?
O ponto 3 e o ponto 4 podem parecer o mesmo mas no quarto refiro-me a uma realidade alternativa onde a Ciência ocuparia o lugar da Religião. Desta forma, penso que estamos longe de aceitar a Ciência como única forma de lidar com o mundo. O senso comum poderá ser, neste caso, um bom conselheiro. Não passa pela cabeça de ninguém dizer que viveríamos melhor se a Arte (ou a Politica, ou o Direito, ou até a Filosofia, etc) fosse substituída pela experimentação e deduções lógicas da Ciência pura. Seria ridículo dizer que viveríamos melhor, seria sem dúvida diferente, mas não estou nada convencido que seria melhor, viveríamos bem pior até. Ora, se este exemplo é válido para todas as áreas onde a Ciência pouco pode ajudar, porque insistem alguns ateus em tentar apresentar como desejável um mundo alternativo onde a Ciência ocuparia o lugar da Religião? Utilizamos instintivamente estes critérios todos os dias para quase tudo mas quando nos deparamos com assuntos que nos revoltam, parece que já não são válidos.
Talvez este seja o obstáculo mais prático de todos. Mesmo que os quatro anteriores sejam verdade pode ser que seja impraticável (mesmo a longo prazo) a erradicação total de qualquer pensamento religioso da face da Terra. Talvez os (ou alguns) Seres Humanos necessitem de algo irracional e inexplicável como a Fé para viver. Talvez a crença irracional em algo que nos transcenda seja tão vital para alguns seres humanos como o oxigénio e, assim sendo, que direito temos de impor a nossa verdade ao mundo. Mesmo que se prove que a Religião é actualmente um mal a combater, ela poderá ter desempenhado um papel indispensável como paradigma moral básico em determinadas circunstâncias Históricas. Talvez.
Agora, no que diz respeito a um mundo sem Religião não vejo (da parte de quem deseja fervorosamente viver num mundo ateu) provas nenhumas de nada disto, vejo apenas meros palpites baseados em: suposições, especulações, convicção pessoal, desejos impulsivos, experiências individuais... Bom, resumindo: pura fé...
…e é aí que os meus caros amigos ateus militantes não estão em muito melhor posição que os fundamentalistas religiosos ao afirmarem (sem o demonstrar) que um mundo como eles o imaginam seria muito melhor para todos, só revelam menos coragem ao ponto de não se fazerem explodir pelo que acreditam.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
A sério. O judeu, o ateu e o islâmico.
Caso tenham vontade de assistir a uma conversa entre um judeu, um muçulmano e um ateu sobre o papel da religião no mundo, não percam.
Dura 90 minutos mas vale bem mais a pena que um jogo de Futebol...
(Julgo nunca ter discordado tanto de um ateu e concordado tanto com um muçulmano como neste vídeo.)
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Um golo numa partida de xadrez. (1)
Muito hesitei antes de dedicar algumas linhas a este assunto, mas basta estar atento para verificar que existe um fosso cada vez maior entre razão e emoção, entre racionalidade e irracionalidade.O que não é tão evidente é a influência que cada uma tem na outra. O mundo encontra-se cheio. A sociedade exige-o, já não conseguimos viver no silêncio, o vazio assusta-nos, não o suportamos, incomoda, tem de ser preenchido.
Se não acontece nada nada somos.
Se não fazemos nada nada temos.
Nada nos move mais que o vácuo.
No entanto poucos são aqueles que na sua sede de conhecer distinguem o "Quê" do "Como".
A nós, cabe-nos apenas escolher de que forma queremos preencher esse caos: que Cosmos queremos construir, dentro de nós.
Atenção que o método que escolhemos não é independente do resultado. Neste caso ele molda inevitavelmente a forma do universo que criamos, é um filtro ou um molde, bem mais que um veículo de transporte de informação. Optar entre um ou outro filtro é cunhar o tipo de informação que estamos dispostos a aceitar.
O método que usamos para conhecer a realidade nunca foi inocente. O problema da nossa constante incompreensão deste facto reside apenas na pressa com que somos obrigados a encher-nos do que nos rodeia. "Não há tempo, estou atrasado..." curiosamente o coelho da Alice espelho-o bem. Existir sempre implicou tempo, mas o coelho só existe se não tiver tempo para nada e é essa mesma ausência de tempo que o torna real: só somos se não tivermos tempo.
Leonardo dizia: " A pressa, mãe da ignorância, admira a brevidade." Vivemos num mundo de pressas, brevidades, instantâneos e de ignorâncias, sem que umas sejam obrigatoriamente as causas e as outras as suas consequências nítidas.
É notório que num mundo cada vez mais globalizado e menos global, cada vez com mais informação e menos saber e cada vez mais instantâneo e menos imediato, a sociedade procure encontrar segurança nas mais duvidosas fontes. Independentemente de se virem a revelar falsas, como diz Richard Dawkins:
«A fé é a grande escapatória, a grande desculpa para se fugir à necessidade de pensar e avaliar as evidências. A fé é acreditar "apesar de", e até talvez precisamente "por causa", da falta de provas».
As provas não são válidas no domínio da Fé (por isso é que é Fé!).
É como querer fazer xeque-mate num jogo de futebol.
As regras são outras, não é válido.
Acreditar através da Fé é algo interior, algo inexplicável, como diz Dawkins: «(...)"apesar de", e até talvez precisamente "por causa", da falta de provas».
Querer fazer o inverso também é ridículo: acreditar numa ciência através de um passo de Fé é querer marcar um golo numa partida de xadrez, é ridículo.
cont...
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
Random Precision
Tenho constatado que existe uma enorme falta de informação sempre que se discute o Sim ou Não no próximo referendo. Mas mais grave que isso, sempre que se discute o aborto são usadas falácias que dificilmente seriam toleradas noutros contextos.Para melhor ilustrar o que quero dizer vejamos o tipo de argumentos utilizados por J. Ribeiro e G. Carvalho quando tentavam explicar o seu ponto de vista nos comments no blog Random Precision .
(Peço desde já desculpa por algumas gralhas, mas optei por copiar os textos na integra preservando a sua forma original).
O debate seguiu-se a este post de Luís Rodrigues (4 de Janeiro):
«Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto? Não, obrigada».
- Cartaz publicitário da campanha do «não» no referendo sobre o aborto.
«Contribuir com os meus impostos para financiar tratamentos médicos a mulheres que abortaram clandestinamente? Não, obrigado».
«Contribuir com os meus impostos para financiar tratamentos médicos a fumadores? Não, obrigado».
- Prováveis próximos cartazes publicitários da campanha do «não» no referendo sobre o aborto.
# posted by Luis Grave Rodrigues @ 10:06 PM
Comentários:
«Sim para acabar com a humilhação.»
- Cartaz publicitário da campanha do «sim» no referendo sobre o aborto.
«Sim para acabar com a humilhação depois das 10 semanas»
«Sim para acabar com a humilhação depois das 24 semanas»
«Sim para acabar com a humilhação até aos nove meses»
ou
«Sim para continuar com a humilhação depois das 10 semanas. (como foi o caso em Aveiro, Setúbal e Maia)».
- Prováveis próximos cartazes publicitários da campanha do «sim» no referendo sobre o aborto.
Rui Castanhinha | Homepage | 01.05.07 - 12:01 pm | #
Contribuir com os meus impostos para autopsiar mulheres que abortaram? Não, obrigado!
Contribuir com os meus impostos para julgar mulheres que abortaram? Sim!Sim!
Contribuir com os meus impostos para sustentar na cadeia mulheres que abortaram? Sim! Sim!
J. Ribeiro | 01.05.07 - 3:14 pm | #
Contribuir com os meus impostos para autopsiar mulheres que abortaram? Não, obrigado!»
Quando é que algum defensor do Não disse isso?
«Contribuir com os meus impostos para julgar mulheres que abortaram? Sim!Sim!»
Quem defende que a lei deve ser para cumprir deve explicar o que faremos a todas as mulheres que abortam depois das 10 semanas...
...ou seja, será que defendem o slogan: «Contribuir com os meus impostos para julgar mulheres que abortaram depois das 10 semanas?Sim!Sim»
ou o slogan:
«Contribuir com os meus impostos para sustentar na cadeia mulheres que abortaram depois da 10 semanas? Ai Sim!Ai Sim, é metê-las na cadeia!»
Algo que não acontece há décadas com a tal lei hipócrita.
Coerência? Não, obrigadinho.
Rui Castanhinha | Homepage | 01.05.07 - 4:05 pm | #
Seja do sim ou não, uma campanha agressiva que se possa fazer não leva a nada. se pudessemos escolher onde os nossos impostos eram aplicados seriamos certamente egoístas, logo não nos podemos basear nesse conceito.
o post é válido e pertinente, foi um acto de campanha estúpido, ponto final.
como viram até neste simples blog gerou confusão...
G. Carvalho | Homepage | 01.05.07 - 4:39 pm | #
Então é-te completamente indiferente onde e como é que os teus impostos são gastos?
Essa é a questão.
Será um «acto de campanha estúpido» perguntar aos Portugueses se querem que os abortos sejam pagos pelo orçamento geral do estado? Não será isso pertinente? Não estará isso também em causa neste referendo?
Tudo isto não é ser agressivo, é apenas por as pessoas a pensar nas consequências do Sim.
Agora, slogans como:
«Sim para acabar com a humilhação.»
Esses sim não são esclarecedores. Esses sim não explicam o que acontecerá a quem abortar às 11 semanas.
E depois disso já é bem feita a humilhação das mulheres, ou a lei também não será para cumprir??
Rui Castanhinha | Homepage | 01.05.07 - 5:22 pm | #
...E a propósito: o que é mais egoísta querer gastar 20 ou 30 milhões de euros anuais em abortos a pedido ou gastar esse montante em planeamento sexual e apoio directo às mulheres que, se tivessem ajuda do Estado, nunca abortariam?
Deixa-me adivinhar:
- «É um acto de campanha estúpido discutir isto, ponto final.»
Rui Castanhinha | Homepage | 01.05.07 - 5:28 pm | #
...a propósito: eu já ouvi isso da boca de pessoas como o sr. Castanhinha há cerca de 8 anos... e ...? qual o contributo que o sr. Castanhinha deu à sociedade e mais precisamente às mulheres que abortaram? Que esforço foi feito de então para cá? Continuo a ver sobretudo mães e repito, sobretudo mães, com uma vida completamente desfeita por terem tido um filho com deficiência profunda e sem prespectivas de futuro para ele...
Viu o decomentário na tv em que uma mãe, mulher a dias, com um filho deficiente profundo que teve de se prostituir para garantir a sua sobrevivência? Quantas famílias numerosas e extremamente pobres visitou no ano transacto? Quantos cafés deixou de tomar para acudir a casos graves? Venha comigo e eu mostro-lhe a miséria...
Por outro lado, não venha com a contra-argumentação dos impostos poderem servir para e para...a conveniência de não saber ou não querer compreender a ironia...
J. Ribeiro | 01.05.07 - 6:41 pm | #
Bom vamos por partes, para ver se nos entendemos:
«...a propósito: eu já ouvi isso da boca de pessoas como o sr. Castanhinha há cerca de 8 anos... e ...?»
e depois sr. Ribeiro? Os argumentos que ouviu «da boca de pessoas como o sr. Castanhinha» correspondem ou não à realidade? É verdade ou mentira que os paladinos do fim à humilhação não sabem o que fazer a uma mulher que aborte depois do prazo legal? Lá porque já tinha ouvido argumentos semelhantes há 8 anos isso quer dizer que não sejam válidos? Datar um argumento não o torna anacrónico.
«qual o contributo que o sr. Castanhinha deu à sociedade e mais precisamente às mulheres que abortaram? Que esforço foi feito de então para cá? Continuo a ver sobretudo mães e repito, sobretudo mães, com uma vida completamente desfeita por terem tido um filho com deficiência profunda e sem prespectivas de futuro para ele...»
Nem vou devolver as perguntas, parece-me mais que evidente. De entre os partidários do Não em 1998 nasceram variadíssimas organizações que se empenham em acolher e apoiar as mulheres que abortaram ou que quiseram ter os filhos mesmo sendo muito pobres. O mesmo não pode ser dito dos partidários do Sim (os tais que estão sempre com a boca cheia de respeito e solidariedade para com as mulheres, mas que se estão marimbando para o filho que ela carrega), esses nem vê-los.
«Viu o decomentário na tv em que uma mãe, mulher a dias, com um filho deficiente profundo que teve de se prostituir para garantir a sua sobrevivência? Quantas famílias numerosas e extremamente pobres visitou no ano transacto? Quantos cafés deixou de tomar para acudir a casos graves? Venha comigo e eu mostro-lhe a miséria...
Por outro lado, não venha com a contra-argumentação dos impostos poderem servir para e para...a conveniência de não saber ou não querer compreender a ironia...»
- Realmente se tivéssemos um país decente o Estado providenciaria um limpo, rápido e gratuito aborto para que ela não tivesse de se prostituir, não é? Isso sim seria a melhor ajuda que se poderia dar a uma mulher que teve a coragem para não matar o filho antes deste nascer.
Ou será que a miséria se resolve com dinheiro, educação e melhores condições de vida. A morte dos filhos de quem menos tem não é a solução.
É para isso que um estado moderno deve servir, para defender os mais fracos: o bebé perante a sociedade e a mãe perante as suas dificuldades. Por esta ordem e não a inversa.
Quem é que «não querer compreender a ironia»?
Quanto ao «decomentário» de que fala não vi. Mas compreendo a sua revolta, só não concordo com as conclusões que retira.
Rui Castanhinha | Homepage | 01.05.07 - 7:31 pm | #
Realmente o sr Castanhinha consegue fazer-me rir...Responda...Esperamos tudo do estado e esquecemos o que nós podemos fazer. É fácil ser pelo "não", pelo seu "não". As organizações criadas de então para cá são tantas que francamente deixei de ver tanta miséria aqui ao meu lado, deixei de ver essa miséria nas páginas dos jornais, deixei de ver atrasos na concessão de pensões de alimentos devidos por pais a crianças, atrasos que demoram anos a fio. Eu não sou a favor do aborto, sou a favor da sua despenalização...entenda como quiser, sr Castanhinha. Porém, uma coisa é certa, todos os dias vejo nos jornais portugueses anúncios de clínicas espanholas sobre a interrupção voluntária da gravidez. E, se esses anúncios existem, é porque as portuguesas mais bem informadas e com algum poder económico as utilizam. Utilizam-nas porque têm dinheiro, apenas, mais nada. As que não têm essa possibilidade fazem-no às escondidas.
E, por outro lado, não lhe passa pela cabeça que uma mulher que queira abortar em condições "legais" possa,recuar na sua pretensão? Será através da repressão que se acaba com o aborto? Já imaginou o que se passa no íntimo de uma mulher que aborta? Sim? Eu não, não consigo. Gosto (!) de as ver achincalhadas num qualquer tribunal!!!!! São tantas as razões que levam mulheres a abortar que não vale a pena continuar. Vamos esperar sentados que os sucessivos governos resolvam a questão. Não acha?
J. Ribeiro | 01.05.07 - 11:36 pm | #
Parabéns, conseguiu escrever 25 linhas sem responder a nenhuma das minhas perguntas anteriores.
Convido-o a visitar o meu blog www.conjurado.blogspot.com talvez venha a mudar de opinião, caso contrário, desejo-lhe um bom ano de 2007 sr. Ribeiro.
Rui Castanhinha | Homepage | 01.06.07 - 1:16 am | #
.

