"It is not even the beginning of the end."
"But it is, perhaps, the end of the beginning."
É uma ilha maravilhosa, a natureza pura e crua à nossa frente. Podem ver golfinhos, baleias, tubarões. Há lá tudo, tartarugas, corais e peixes sem fim. Façam mergulho é um espanto.
Têm de ir à Inhaca é já ali, duas horas de barco e pronto.
Têm mesmo de ir.
Fomos, e tínhamos mesmo de ir.
Se, no lugar de qualquer preconceito pudéssemos colocar uma prudente ausência de espectativas, não teríamos desilusões, mas pena viria de nem o espanto ter sentido.
As referências à situação geopolítica na África austral sucedem-se e vêmo-nos mergulhados em nomes, tratados e negociações desconhecidos. O almoço, no mercado do peixe, serve-se só depois de escolhida a garoupa. Enquanto grelha esperamos e o cartão de visita de Moçambique é servido como entrada. Camarão tigre, grande, gordo e fresco.
Se dúvidas houvesse fica a certeza que a humanidade é muito mais igual que diferente e lá por termos passado o equador e a estrela polar deixar de ser visível o que nos orienta é sempre o mesmo.
Todos admiramos a beleza, a inteligência e a audácia. Poderá existir combinação mais irresistível e perigosa?
O dia começou na Universidade Eduardo Mondlane.
Nove e meia em ponto, temos o auditório meio cheio e dez minutos depois já há pessoas sentadas no chão. Não sabemos o que nos espera mas, ao que consta, em periodo de exames é inédito.
Passada uma hora a falar sobre aberturas crânianas e filogenética, suspeitamos que a mensagem possa não ter sido a melhor para um público essencialmente composto por geológos.
O erro é nosso e o silêncio dá lugar a um bombardemento de dúvidas e sugestões críticas. Desde a Evolução das espécies à tectónica de placas estamos rodeados de interesse e, se ao almoço foi a garoupa e o camarão tigre que nos deliciou, ao inicio do dia foram as perguntas e a motivação de todos por saber mais que alimentaram o nosso espanto.
Sempre que ouvimos dizer que a ciência fundamental não tem interesse, convencemo-nos que quem não tem interesse são as pessoas que passam a vida a repetir isso.
E é no último dia de Junho que estamos e já sentimos mais o país e as pessoas. Estamos em casa.
Há quase qualquer coisa de estranho na proximidade das classes dirigentes com o povo. Tudo parece natural e honesto. As oportunidades existem e embora não seja possivel escrevê-lo, a quem meia palavra bastar facilmente perceberá que o projecto vai crescer.
Entre o carbonífero e o pérmico, no Museu Nacional de Geologia, há duas vistas para a avenida 24 de Julho. Entre as janelas está a vitrine onde alguns fósseis de sinapsídeos ficarão orgulhosos a descansar. Há que tratar de os limpar e iluminar. Como se o Sol africano que passa pelas duas grandes janelas não bastasse, o móvel apresenta seis pontos de luz e temos que lhe fazer chegar corrente.
Como é claro, é já sem qualquer surpresa que encontramos nos detalhes as mais fortes lições a aprender.
Um cabo eléctrico tem sempre duas pontas, uma de cada sexo. Ligar o móvel é simples, basta passar o cabo por ali, pegar na ponta macho e... BANG! O mindinho e o anelar estalaram num grito que chegou ao jardim. Tem sempre duas extremidades, mas nem sempre de sexos opostos.
Às vezes é melhor ter a certeza sobre o número de machos que está numa sala antes de se querer estabelecer qualquer tipo de ligação.
Amanhã com dois dedos dormentes há uma palestra na Universidade Eduardo Mondlane para alunos e professores. Esperemos que ninguém goste de apertar a mão com força.
Office Paleontology: that is the right term to describe what we’ve been doing. Interesting? Not really. Necessary? No doubts. As a result, the majesty of the idea of free will quickly becomes meaningless.
– So what are you doing here in Mozambique?
– We came here to study fossils. [the Portuguese word for fossils is “fósseis” which is quasi-homophonous to the word “fossas”, meaning septic tank]
– Ah! “Fossas”… there is lots of work to do here…
– Oh really! Where?
– You guys will have lots of work here! Sometimes the sealing of the tanks jump out and we have to clean it all.
Domingo na capital.
Maracujá fresco e sumo de banana acompanham as tradicionais torradas e café com leite.
O plano do dia é revisto enquanto o pequeno almoço é servido. Há que tratar de emails, burocracias atrasadas e começar a esboçar mais planos e novos projectos.
Almoço num restaurante halal, rústico e caseiro. Boa comida, bom ambiente mas onde é recomendável algum espírito de aventura. Sendo a comida muito boa e generosamente servida, trouxemos o caril para o hotel. À noite servirá de jantar.
A baixa de Maputo é uma zona quase fantasma ao domingo de manhã. Quase não vemos carros, não vemos lojas abertas e os passeios não se movimentam cheios de gente como nos dias de semana.
Os nossos minutos estão contados e todo o trabalho que pudermos avançar será feito ainda esta noite. Amanhã começa uma nova semana e temos de ter tudo pronto para que nada falhe.
Junho 25
Criar um inventário pode ser uma tarefa entediante... muito entediante... e após algum tempo encontramo-nos a ouvir canto gregoriano enquanto empacotamos fósseis com papel higiénico no meio de Moçambique. Pouco há a fazer, é melhor continuar a embrulhar até o Sol se pôr, até termos os pés frios e os mosquitos acordarem e começarem a morder.
Os cantos gregorianos foram interrompidos pelo som de tambores de uma festa distante. Hoje, Moçambique celebra o dia da idependência. A indepência de um tempo colonial português deu agora lugar a uma cooperação productiva entre dois países unidos por laços históricos profundos.
June 25
Making an inventory can be a boring task.... veeeery boring... and after a while you find yourself listening to Gregorian music while wrapping fossils with toilet paper in the middle of Mozambique. Not much that we can do about it: better keep wrapping until the sun goes down, our feet get cold and the mosquitoes are all awake and happy biting us.
Our Gregorian songs were interrupted today by the sound of drums from a far distant party. Today Mozambicans celebrate the Day of Independence. The independence from the Portuguese colonial times is now replaced -- in our case -- by a fruitful cooperation between these two countries linked by historical bounds.
Passamos os olhos pelo que nos envolve e um símbolo chama a atenção.
As farmácias usam um símbolo original, uma serpente de Esculápio enrolada naquilo que parece ser um coqueiro com uma estrela no topo esquerdo da imagem. A transformação do bastão de Esculápio em coqueiro é bem mais divertida que a confusão mais comum com o caduceu de Hermes. Trocar um bastão com poderes de cura por uma planta, é inovar e materalizar a metáfora. Trocá-lo por um símbolo do comércio, é ofender a medicina e quem a pratica.
Após um ano reencontrámos os fósseis escavados em 2010, desta feita, bem guardados no museu. Há que desempacotar, fotografar, catalogar e acondicionar de forma a poder ser tudo transportado.
O dia avança. Como sempre, a “terra da boa gente” revela-se cheia de hospitalidade e é muito fácil encontrar um sorriso que nos aponte um restaurante ou a rua que procuramos.
E como é também claro, Portugal é bem mais difícil e a luta do Salimo continua para tratar do visto. Somos, todos, bem complicados.
A noite cerrada das seis da tarde denuncia o Inverno austral e por hoje regressamos ao hotel.